Como evitar abelhas no bebedouro do passarinho

Bebedouro-Passarinho

– Ele me ignora!
– Calma, minha filha, também não é assim.
– Me sinto rejeitada. Ele nem toca na minha comida…
Começou assim minha sessão terapêutica com o seu Daugas Friech. Por telefone, ele me consolava.
– Ele é assim mesmo, gosta de coisas espalhafatosas.
– Mais kitsch que o bebedouro que eu comprei? Impossível!
– Coloca banana, minha filha. Banana e mamão é tiro e queda.

Estava arrasada. Toda manhã eu vou até a janela conferir se a água está fresca e se comeram as sementes de girassol, mas o sabiá só me ignora. E isso porque tem uma praça enorme na frente da minha casa, um verdadeiro condomínio de aves. Nada de sabiá, nada de bem-te-vi, até as rolinhas me ignoram. Não sei em que restaurante eles devem estar indo para manter todos esses bicos cheios. De duas, uma: ou tem mais gente tentando atrair maritacas barulhentas e beija-flores fugazes, ou a bicharada não gostou do meu cardápio. Esses eram meus pensamentos até ontem, quando conversei com um santo passarinheiro, o ornitólogo Dalgas Frisch.

– Você mora em apartamento?
– Moro.
– Sabiá é bicho preguiçoso, só vai até o segundo andar.
– Ahhhh…
– Você quer beija-flor também, né?
– Seria ótimo! Eles também não chegam em apartamento alto?
– Coloca água com açúcar que eles vêem. Mas só de sexta a domingo.
– Por que?
– Senão, aparecem aquelas abelhinhas pretas.
– E…

Já estava imaginando que elas só trabalhassem em horário comercial, de segunda a sexta.
– Minha filha, quando você coloca mel na janela, elas avisam à colméia: “Aquela jornalista bonitinha colocou comida pra nós!”. Só que elas precisam de três dias para avisar a colméia inteira. Senão, não faz a ponte aérea.
– Ponte aérea?
– Sim, ponte aérea Colméia-Janela, ué.
– ?
– Essa nunca entra em crise, minha filha, nunca. Para despistar as abelhas, você coloca água com açúcar de sexta a domingo. Quando elas chegarem, na segunda, não tem mais. Elas vão insistir até terça e logo vão perceber que era alarme falso.
– Falha no Cindacta 1.
– Isso. Aí, na sexta você coloca de novo e até uma avisar a outra…
– Já é segunda!
Amei aquela idéia de frustrar abelhas. Contanto que os passarinhos apareçam, claro. Esta aeromoça aqui não é lá muito paciente.

A fera do aspirador de pó

Aspirador-AbelhaO trator da limpeza de 1,50 m irrompe no escritório rumo à varanda, com balde, vassoura, rodo, pano, escovão, aspirador de pó e… Êpa, aspirador de pó? Fui pé ante pé ver o que a Val estava aprontando quando a flagro, bravíssima, em cima do bebedouro dos passarinhos, dando golpes no ar com a mangueira do aspirador de pó.

– Val?
– …
– Val! Vaaaaaal!!!
– Chamou, Carol?
– Deeeesliiiiga o aspiradoooor, Vaaaaal!
– Ah, é!
– Val, o que raios você está fazendo com o aspirador, mulher?
– Chupando as abelhas, Carol.
– !
– Você não disse que o beija-flor morre se for picado por abelha? Tô vendo o bichim na maior agonia, voando aqui e ali, mas ele não consegue chegar perto do bebedor porque tá com abelha.
– Val, não vá me dizer que você está chupando as abelhas com o aspirador de pó…
– Ah, tô sim, e já faço isso desde a semana passada. Não reparou que as abelhas deram uma sumida?

Como fazer a árvore dar fruta dentro de casa

Pitangueira Fruta

— Moço, preciso de um adubo dos bons.
— Para quê?
— É que tenho uma pitangueira em casa, mas ela não dá fruta.
— Quanto tempo ela tem?
— Ah, um bocado. Só comigo, está há seis anos.
— E dá flor?
— Então, isso que é estranho… Dá flor, mas ela seca e cai. Já viu pitangueira que não dá pitanga?
— Você mora em casa ou apartamento?
— Em apartamento. Ela fica na sala, num vaso bem grande.
— Num vaso?!? Na sala??? Na varanda, né?
— Não, na sala mesmo. Mas fica do ladinho da janela!
— E a janela fica aberta?
— Não, passa a maior parte do tempo fe…
— Fechada. Sabia. Esse é o problema.
— Minha pitangueira não dá fruta porque a janela fica fechada?
— É.
— E se a janela ficasse aberta…
— Escancarada.
— Se a janela ficasse escancarada, eu teria pitangas?
— O bastante para fazer geléia.
— Não sei se peguei direito a coisa…
— Relaxa. Nem tudo está perdido. Sua pitangueira é grande?
— Bate no teto, deve ter uns três metros…
— E dá muitas flores?
— Não sei…
— Você conseguiria contar todas?
— Acho que sim.
— Não são muitas. Compre um pincel macio.
— Um pincel?!?
— Isso. Quando as flores estiverem abertas, passe o pincel nelas. Como se fosse pintá-las. Com cuidado.
— Como se eu fosse pintá-las.
— Exatamente. Passe em quantas conseguir encontrar. Você terá pitangas na próxima florada.
— Mesmo?
— Ah, sem dúvida.
— Só para o caso de o lance da janela e do pincel não ter ficado claro, você poderia me explicar por que tenho de pintar as flores?
— Manja aquele baratinho preto e amarelo chamado abelha?
— Lógico. Eu sei o que é uma abelha.
— E sabe pra quê ela serve além de picar e fazer mel? Ela carrega pólen. Pólen faz flor virar fruta. É tipo um espermatozóide em pó. Como a janela fica fechada, não venta, que é o outro jeito de pintar um clima pra planta. “Um clima”, se é que você me entende…
— Sim.
— Então, como você não deixa a árvore seguir o curso normal da natureza, tem que ir lá e dar uma mãozinha.
— Você está me dizendo que eu tenho de estuprar a flor???
— Meio que por aí.
— Santodeus!
— Pense que você está dando uma força para ela tipo esses sites que juntam casais…
— Tipo Namoro.com?
— Isso! Você dá pra flor justinho o que ela queria. Se ela pudesse, diria “obrigada”.
— Hmmm… Quanto lhe devo pela aula de botânica?
— Nada não. Quando você voltar aqui, me traz um pote de geleia de pitanga que tá tudo certo. Firmeza?

Com o chinelo e a coragem

Chinelo Mao

Não tenho medo de cobra. Nem de lagarto. Escorpião, então, é fichinha, quase sentei em cima de um durante um acampamento de escoteiros. Rato eu acho bonitinho, mesmo se tiver cara de esgoto. Mas morro de medo de abelha. Morro. Dá até um friozinho na barriga.

No trabalho tem um monte daquelas amarelinhas, que ficam zanzando em torno da gente atrás de chá, bala, refrigerante, umas abelhas muito exigentes. A balconista da lanchonete tem certeza de que eu sou esquizofrênica porque peço dois cafés, encho um deles de açúcar e o deixo intacto. É minha oferenda à Madame Ferrão.

Dito isso, você pode fazer uma ideia do meu desespero toda vez que, pacificamente cuidando das orquídeas na varanda, sou encurralada pelo belhouro. Trata-se de um bicho muito do mal diagramado, misto de abelha com besouro, que faz um barulho de turbina ligada. Deve polinizar por atropelamento – a criatura é tão pouco ergonômica que as flores pendem quando são visitadas por ela.

Tenho na varanda uma borboleteira, uma arvoreta que atrai justo quem? Quem? O belhouro. Ontem acordei e fui cuidar das minhas plantas. Meia hora depois, Omblogsman me flagra pelo vidro da sala plantada na varanda com o chinelo na mão e cara de pânico. Encurralada mais uma vez pelo inseto demoníaco. Não fosse a intervenção maridística, eu estaria na varanda até agora. Ou teria me jogado. Um chinelo não seria páreo para o abominável belhouro.

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